A síntese a seguir tem como propósito citar aspectos da construção de algumas das composições para que sejam entendidos alguns elementos característicos do autor. É importante, contudo, que se encare estes aspectos como secundários, sendo abordados como curiosidade e como mais uma forma de se conhecer e apreciar as músicas. O que aqui é explicitado pode até mesmo para alguns, trazer à luz coisas que gostariam que continuassem implícitas. Há, ainda, quem possa considerar melhor ouvi-las primeiro e depois proceder a esta leitura. Para quem não parou neste ponto, continuamos.
Verifica-se de imediato uma preocupação estética bastante presente e que consiste na forma com que o compositor busca harmonizar a música com a expressão poética das letras. A evocação, porém, de tais princípios não significa atingir uma radicalização tal de construção que acabe por comprometer a liberdade para a expressão da idéia, nem o uso de palavras que, muitas vezes, são únicas e não substituíveis para o sentido que é buscado.
As músicas mais antigas presentes no CD são “Brio”, uma das primeiras composições, e “Carta à Amanda”, que possui alguns elementos interessantes que iremos mencionar. Um deles reside na busca de uma inversão do lugar comum já na escolha de tons a serem utilizados. Na maioria das vezes há uma tendência natural de se colocar tons menores em músicas mais melancólicas e introspectivas e tons maiores para uma música mais alegre ou quando há a intenção de se fazer crescer determinada parte desta. Neste caso, a inversão foi buscada em razão do enredo que é apresentado em uma carta enviada para a personagem Amanda. Ela, antigo amor de quem está redigindo a carta, continua residindo em uma pequenina cidade interiorana de onde ele hoje arrepende-se amargamente de ter saído. A idéia, porém, de ir para a cidade grande para estudar, trabalhar e ganhar muito dinheiro, eram os conceitos que tinha para sua felicidade, conceitos estes que foram mudando com o tempo até chegar ao ponto da nostálgica confissão. A música começa em um tom maior neste momento e quando cresce passa para o mesmo tom menor, tentando criar conjuntamente uma característica de inversão. No refrão retornamos ao tom maior, porém a melodia é construída de forma a transitar em notas da escala menor para gerar, além de um efeito diferente, uma melhor harmonização na convivência destes dois momentos. Também podemos observar que Amanda, personagem principal da música, nunca surge. Nem mesmo quando as rimas a chamam como no trecho “... o sol na varanda me manda um pouco de calor” ou em “... a brisa mais branda me manda...”. Propositadamente seu nome é suprimido para que, ainda mais sutilmente, o ouvinte também acabe por sentir a sua ausência.
Em outras músicas, podemos encontrar trocas de tom não muito usuais, mas que por isto acabam sendo interessantes também para que se perceba como são resolvidas as transições. Em “Arremesso”, por exemplo, há um momento de transição de tons que se realiza exatamente no momento em que há uma descoberta importante do personagem do solilóquio que está narrando um pesadelo. Nesta narrativa há, ao mesmo tempo, uma espécie de auto-análise do locutor que chega ao ponto em que percebe que sua descoberta é diferente daquilo que por ele era esperado. Este chaveamento (mi menor para dó menor), no entanto, se faz de maneira sutil para que quase não se perceba esta descontinuidade na ida ou retornando ao tom inicial. Outro aspecto desta música que podemos perceber é a presença de palavras-elo colocadas verticalmente entre as frases musicais. São elas “... surgindo as dores...”, “...rugindo e os ecos...”, “...fingindo pedras...” e “...fugindo às cegas...”. Outro elemento que aqui se revela como maneira de salientar o vazio, palavra chave do seu entendimento final, é um silêncio posto em forma de pausa quando a palavra “vazio” é cantada.
Observaremos estes elementos verticais unindo as frases musicais em “E agora?”, esta que possui também uma forma diferente de construir orações utilizando inversões de ordem de um par de palavras para gerar idéias bastante diferentes: em “... refém do teu próprio amor que amor-próprio não tem.”, em “... que não sabe deixar, nem se deixa saber.” e em “... que não sabe sonhar, já nem sonha saber”. Particularidades harmônicas também podem ser notadas em “E agora?”. A dramaticidade, característica mais forte da música, é acentuada em dissonâncias que fazem uma dinâmica de tensão e repouso. A indagação, presente mesmo no título, de como uma relação amorosa cheia de aspectos psicológicos que minaram todas as possibilidades de felicidade pode continuar depois que quase tudo já “soçobrou”, é feita após uma seqüência de constatações que vão demonstrando esta idéia de que tudo esta desmoronando. Com isto, a harmonia da música neste ponto segue uma seqüência descendente, e cromática em sua maior parte, para reforçar esta dinâmica.
Outra música que coloca a harmonia em reforço da idéia que está no conteúdo da letra é “Cantilena”. Por se tratar de uma repetição continuada de um pedido de retorno de quem não se conformou com a ruptura unilateral de uma relação amorosa, há uma harmonia que faz com que uma nota, no caso a 9ª do tom, perdure como dissonância ou nota do acorde em quase todas as seqüências e encadeamentos. Vocais acabam também por explicitar esta característica de cantilena. Aqui há um elemento de quebra do óbvio e do repetitivo com a alteração da dinâmica e o auxílio da modificação de um ditado muito conhecido com construções do tipo: “... não chores pelo leite derradeiro...” quando quer pedir ao outro que não peça mais uma última chance e em “...deleite sobre o choro derramado...” que faz referência a estar sendo sádico.
Ainda neste mesmo aspecto é possível observar que a harmonia de “Esquiva”, na última frase musical, é feita para que a idéia de movimento de desvio, ou escapada, seja reforçado com oscilações de ida e de volta em semi-tons. O crescimento da dinâmica também traduz um aumento da tensão de uma pedante tentativa de conquista que vai se desenrolando sem que o afoito conquistador perceba que a sua vítima não é a pessoa presumidamente tola que parece ser e que muito menos entrou no “jogo” até chegar o surpreendente desfecho.
Em “Arco-íris” há um personagem que tem uma visão de mundo um tanto limitada e conhece outra pessoa que é muito diferente que o faz, da forma que vai sendo possível fazer, mudar aos poucos. Naturalmente ele passa a perceber esta nova forma de enxergar as coisas ainda um pouco dentro de suas concepções, o que o faz estabelecer analogias com a natureza para entendê-las e a ele próprio. Assim, quando esta nova pessoa e o mundo lhe apontam direções diferentes das que ele costumava seguir, há um misto de empolgação com desorientação e medo representado pela ameaça de águas que vão apagando rastros e que podem mesmo levá-lo a uma espécie de naufrágio. Este momento, que na verdade ocorre quando a pessoa, que para ele era simbolizada como uma espécie de sol parece não estar mais presente, é o momento real da descoberta. Ela, mesmo estando sempre ao seu lado não é vista em razão de um quase desespero. Quando finalmente retorna à sua lucidez, volta a vê-la em uma condição inesperada que pode ser comparada a um arco-íris. Este elemento simboliza uma visão de mundo menos cartesiana em que chuva e sol acabam coexistindo e que desta junção, ainda, pode surgir um terceiro elemento de beleza antes impensada. Este ciclo de chuva, sol e a presença do arco-íris é coroado com uma harmonia, também cíclica e com três elementos, que estabelece uma espécie de mantra musical.
Por fim, citaremos mais uma espécie de trabalho estético e lúdico com as palavras em “Ávido à vida”, que já traz em seu título uma idéia do tipo de letra que virá em seguida. A intenção é buscar, para uma música que tem um caráter percussivo mais acentuado, palavras que expressem uma igual “percussibilidade” por assim dizer. A todo momento, estabelece-se este jogo, com exceção de duas quebras que assim ocorrem: quando o personagem se dá conta de sua infelicidade em “... que dia-a-dia!” e quando ele finalmente pula o muro que o cerca, e que representa sua liberdade, disparando um “...olha pra cima!” como uma espécie de “fui ...”. Para obter este efeito de quebra, as frases não possuem rima com outras e tampouco a estrutura que anteriormente vinha sendo utilizada.
Em “Conversa afiada”, que é a discussão de um casal dentro de um apartamento, ocorre algo semelhante com as frases “... parado à beira de baratinarmos ...” e em “... se posto este basta ao ver bestificados ...”, onde a seqüência de sílabas e palavras oferece uma representação caricata de verborragia.
Observamos aqui exemplos de idéias de construção em passagens de algumas músicas do CD. É interessante perceber elementos semelhantes em outras que aqui não foram citadas, como também elementos novos que estarão presentes com este intuito estético e harmônico. É importante, contudo, voltar a dizer que estes sejam vistos como secundários, sendo abordados como curiosidade para melhor conhecer e apreciar as músicas. São meros elementos da parte mais compreensível que se mistura a este universo quase intangível de todas as coisas que sentimos.