Arco-íris (
)
E faltavam léguas numa escuridão,
clara a sensação da imensidão da busca.
Foste sol em trégua revelando os vãos,
relevando as mãos em meus olhos
a evitar o ofuscar.
Vislumbrava sendas e portais
os caminhos sendo mais,
deslumbrado a ver em mim lugar
vasto por trilhar.
E inventavas passos soltos na amplidão
sem ver direção, só a da paixão em vagar.
E eu criando traços, mapeando o chão.
Tudo feito em vão.
Vinda a chuva, era um mar. Naufragar...
Te esperava, sol, vir terminar
tanta água a solapar
e lá estavas, vívida a compor,
chuva, mar com sol e cor.
Meu barco cinde,
cinges-me em luz.
Meu arco-íris
de íris azul.
E me levas pela mão, mesmo sem saber a canção.
É quando esquece até o chão de te ter.
E me elevas sobre o não das paredes da minha aflição
revelando a redenção que é viver.
Flor de outono (
)
Serena flor em plena flor da idade,
mas já sofreu um mar.
Com o tempo a dor,
contendo a liberdade,
te fez ensimesmar-se
Mas um suave sorriso
faz teu avesso vingar.
Por onde passo, onde eu piso?
Um tropeço e te vais
Te imaginar ingênua, gêmea alma
que em sonho quer me achar.
Contempla o amor
contemporiza, acalma
até distanciar-se
Mas como me queres omisso
te vendo um poço no olhar?
E o que eu faço com isso?
Se esmoreço, tu te vais
A dócil, meiga se rendeu.
Na dose, leiga, se perdeu.
Adolesceu, adorou ser mulher.
Adoeceu, adormeceu.
A dor cedeu, a dor morreu.
E a doce deixou do seu eu...até...
Então me impeço, me aviso
e não te peço um lugar.
E o que eu faço com isso?
se te esqueço, onde vais?
Esquiva (
)
Mesmo que eu te dissesse
e você tentasse crer,
sei que inútil seria
a palavra não.
Mesmo que eu te quisesse
ou me deixasse crer,
sei que fútil seria
estar em tuas mãos.
Não suponha prender-me
com esses olhos de inócuas vontades.
Não presuma saber-me
se ignoro as tuas vaidades,
tua posição em ponta de pés
e músculos contidos,
tua prontidão olhando em viés
e aguçados sentidos.
Com tanta sede ao pote,
não haveria graça
em dizer: não ouse o bote!
Não subestime a caça!
Sim, naquela docilidade
havia o premeditado
prazer da surpresa.
E como bela foi a esquiva
no último segundo
da tua vã certeza!
Enquanto dormes (
)
À meia luz a lua cheia
clareia tua tez.
Imagem magistral,
viagem mágica se fez.
Vicejas vida,
ensejas a minha,
mesmo adormecendo.
A esmo vou te colhendo.
Enquanto cato encanto,
incauto, assaltas-me de vez.
Sem saber, insano,
ensaio uma insossa sensatez.
Grata surpresa
ser tua presa,
embora nem vejas
e nem toques em mim.
Sinto a alma aflita,
minto a calma assim
como alguém que grita
sem ninguém para ouvir.
Vasculho tua beleza a verter,
mas vou me vendo sendo desvendado.
Minuciosamente te querer.
Enquanto dormes, sonho acordado.
Ávido à vida (
)
Te queria, não te quero mais.
Teu cativeiro me cativou,
mas agora, aqui fora, voraz
vou à cata do que me inquietou:
que era ver minha vida virar,
pois você minha vida vedou.
Sem você, vou ser, vou serenar,
voar vou.
Voar vou,
fugir da tua manha, das manias,
do humor da tua manhã, teu amanhã.
Que dia-a-dia!
É prá acabar com a batucada
que a embatucada vem aí!
Não brigo, vou me embriagar até dormir.
Se eu ouvisse você me chamar,
logo vinha aninhar minha flor.
Se difícil fosse fascinar,
não escondia quando ardia a dor.
Mas quando fez-se a farsa, foi-se a paz.
Face a face você vacilou.
Não discuto, nem te escuto mais.
À toa 'tou.
Tô à toa.
Não quero mais ser mero morador
nos muros murmurando a minha dor.
Olha prá cima!
Cada queda acorda, cada acordo é corda
é cor do iludir.
Lúdico ludibriar, desiludi...
E agora? (
)
E agora?
Nossas feições assim
de destroçadas forças,
de corações num elo mordaz.
E embora
as afeições e fins
já tenham dado conta,
hoje nem contam mais.
Vou te pilhar, vou te render
e te humilhar sem ver porque,
sentenciando nosso amor
que foi demais e hoje é refém
do teu próprio amor,
que amor próprio não tem.
Vou te vingar, te merecer
por castigar-te, por eu ser
a parte algoz a se juntar
à parte voz de um bem-querer
que não sabe deixar,
nem se deixa saber.
E afloram
as aflições que quis
enclausuradas, mortas,
das desilusões a nos delatar.
Afora
as confissões que fiz,
que não cessaram culpas
e os perdões sem nos perdoar.
E a desatinar,
na dor querer
por ciúme matar,
por mim morrer,
vendo o afeto a soçobrar,
boiando com as sobras,
perceber
que não sabe sonhar,
já nem sonha saber.
Companheiramente (
)
Sem rumo, sem remos,
sem rimas, sem cor.
Serrramos, morremos,
nós ramos de amor.
Em suma, só somos
uma soma de escoras,
dois corações em desalento
acalentando ao vento a chama da paixão.
E comportadamente a chorar,
compactuadamente aceitar,
mas companheiramente a juntar
os nossos cacos pelo chão.
Sem rezas, sem risos,
sem rosas, frissons.
Só raros sorrisos
e rasas razões.
Assumamos, somos acima de tudo
atordoados pensamentos
em busca de um momento só de um grande amor.
E convulsivamente a chorar,
compadecidamente, um olhar,
mas companheiramente enxugar
os nossos olhos sem rancor.
Tramados arremedos
de um modo de amar
e nós mudos de medo
de tudo mudar.
Sem mais ombro a ombro,
são sombras, escombros.
Escoras partidas, partida se quis.
Inesperadamente terminar,
desesperadamente aceitar
e esperar que a gente vá ficar
um dia um pouco mais feliz.
Visitante (
)
Assisto teu rosto
em expressões infindas,
abrindo portas de si
e janelas em luz.
Despisto desgostos
em meio as boas vindas,
que se esquecem de vir
e já nem mexo em meus baús.
No entanto vou seguindo adiante
tonto em ti, titubeante.
Burocrático em meus passos,
faço um ilustre visitante.
No entanto, um tanto tonto tento
até contar com teu alento.
No entanto, um tanto tonto tento
até contar com tão atento amor.
Arremesso (
)
E vão surgindo as dores como fossem
os grandes monstros destes pesadelos
de longas noites quentes de barulhos
e prantos ao longe.
E vêm rugindo e os ecos têm meu nome
quebrando os muros que erigi sem vê-los
com vãos suores de lavor e medo
sem ver o horizonte.
E eu fingindo pedras
com minhas faces mortas,
mas cerrando os dentes.
E eu fugindo às cegas
com minhas pernas tortas,
desobedientes.
Pegam-me por um pé,
giram-me sobre a cabeça
e sadicamente ao céu,
arremessam-me.
Querem-me querendo o frio
num vôo ao infinito vazio
da indiferença.
Conversa afiada (
)
Eu não queria até mudar de conversa
que o assunto não terminou,
mas peço um tempo, fôlego,
que a boca é perversa
e a língua tropeçou.
Sem proveito e jeito,
é só despeito esta turra.
A noite sim, terminou
à míngua, em mágoa,
com ciúme, jogo de empurra.
A coisa desandou, meu bem.
Parado à beira de baratinarmos
nossas cabeças já tão cansadas.
Sem ronha me ponho, proponho fiarmos
esta conversa afiada.
A estrada embreta, a gente embesta
e o verbo desembestou.
A gente cospe fogo, grita,
a gente não presta
socorro a quem calou.
No andar de baixo, acho,
alguém insone protesta.
Em cima alguém cutucou.
Quem foi que disse
que a vida é uma festa?
Ninguém nos convidou... ninguém...
Se posto este basta ao ver bestificados
os argumentos já indolentes,
talvez haja vez a quem fez-se calado,
pois quem se cala ressente.
Cantilena (
)
Se toda esta vênia for pavor
de estares só, apenas.
Só não me venhas, por favor,
com estas cantilenas.
Não chores pelo leite derradeiro,
nem cores se antevejo nas ações
(e vejo em um segundo e primeiro)
segundas e terceiras intenções
Se toda esta ânsia fosse amor,
meu coração capenga
quase ouviria teu clamor
com esta lengalenga.
Deleite sobre o choro derramado,
aceite que não é do meu feitio
e que me deixas mesmo é desarmado
e as queixas são só deixa ao meu fastio.
Carta à Amanda (
)
Quando eu te falei de vir,
não vi a dor por te causar
e me fechei pra conseguir
sair daí deste lugar.
Mas só agora eu vi teu olhar.
Este lugar aqui vem mostrar.
Um dia-a-dia, um rema-rema
me deixando tão vazio.
Sinto frio, a nostalgia
teu cheirinho de alfazema.
E o sol na varanda
me manda um pouco de calor.
Na minha pressa de partir,
a tua prece de eu voltar
me fez até saber convir,
se a ti parece um não gostar.
Mas só agora ouvi te falar.
O teu amor aqui vem gritar.
Meu coração, tô tirando as vendas
que o alvoroço me vestiu.
Ouço o rio, uma cantiga,
tua voz, a velha moenda.
E a brisa mais branda
me manda um pouco de candor.
Brio (
)
Procurar a fio o fio de soltar
ss presas a nos ferir, tão ávidas.
Ter no desafio, no brio de lutar
a razão de existir, tão lógica.
E a cada vez que alguém te derrubar,
levantas como o sol a despertar.
A visão de cumprir com a existência
o papel de agir para que seja digna,
a consciência consigna.
Derrotar os vis ardis de conservar
as muitas formas do servir, tão pútridas.
Ter que dar de si, de si abdicar
na loucura de seguir, tão lúcida
E a cada vez que alguém te derrubar,
levantas como o sol a despertar.
A visão de cumprir com a consciência
o papel de agir e jamais resignar
por uma existência condigna.
Procurar o fim e, assim, ver terminar
a tarefa por cumprir, tão árdua.
Ver, chegando enfim, que é sim recomeçar,
que a semente há de vir perpétua.
E a cada vez que alguém te procurar,
ressurges como um sopro a levar.
A visão de cumprir com a existência
o papel de agir para que seja digna.
A visão de cumprir com a consciência
o papel de agir e jamais resignar.